Resumo

A respiração bucal e os hábitos disfuncionais associados a ela — como a interposição lingual durante a deglutição e a hipotonicidade labial — figuram entre os principais fatores etiológicos da mordida aberta anterior e das discrepâncias transversais da maxila. Este relato descreve o tratamento de um paciente do sexo masculino, diagnosticado com mordida aberta anterior de componente esquelético, mordida cruzada posterior bilateral e atresia maxilar, associadas a respiração bucal, ausência de vedamento labial e interposição lingual. Diante da possibilidade previamente cogitada de extração de molares, optou-se por uma conduta que priorizasse o restabelecimento funcional e a reorganização oclusal antes de considerar intervenções mais invasivas. O plano terapêutico incluiu expansão maxilar com placa superior encapsulada, alinhamento e nivelamento ortodôntico, uso de retentor lingual inferior para reeducação postural da língua. O acompanhamento clínico e radiográfico demonstrou correção estável da mordida cruzada e da mordida aberta, reestabelecimento das guias caninas e da guia protrusiva, e melhora da postura e do tônus muscular.

1. Introdução

A respiração bucal crônica e os padrões disfuncionais de deglutição estão amplamente associados, na literatura da Ortopedia Funcional dos Maxilares, ao desenvolvimento de mordida aberta anterior, atresia maxilar e mordida cruzada posterior. A ausência de vedamento labial em repouso e a postura baixa da língua — quando o dorso lingual deixa de ocupar a totalidade do palato duro — comprometem o equilíbrio neuromuscular entre a musculatura lingual e a perioral, alterando o espaço funcional livre e favorecendo a instalação de deformidades dentofaciais.

Nesses quadros, a discrepância transversal da maxila e a mordida aberta frequentemente coexistem, refletindo um desequilíbrio funcional mais amplo — e não apenas uma alteração dentária isolada. A literatura reforça que a abordagem terapêutica mais conservadora e estável a longo prazo é aquela que busca restabelecer a função (respiração nasal, postura lingual e vedamento labial) e reorganizar a oclusão antes de considerar intervenções mais invasivas, como extrações dentárias.

Este relato descreve um caso em que a extração de molares havia sido sugerida anteriormente como alternativa terapêutica. Optou-se, no entanto, por uma conduta baseada na reorganização funcional, com acompanhamento clínico e radiográfico documentado ao longo de seis anos.

2. Relato de Caso Mordida Aberta e Cruzada

2.1 Anamnese e Exame Clínico Inicial

Paciente do sexo masculino apresentou-se para avaliação inicial com sinais compatíveis com respiração bucal: ausência de vedamento labial em repouso e hipotonicidade da musculatura labial (Figura 1).

Figura 1 — Perfil facial inicial, evidenciando ausência de vedamento labial em repouso, compatível com padrão de respiração bucal.

Ao exame intraoral, observaram-se mordida aberta anterior e mordida cruzada posterior bilateral, com atresia maxilar, postura baixa da língua e interposição lingual durante a deglutição e a fala, além de apinhamento dos dentes inferiores (Figura 2).

Figura 2 — Fotografia intraoral inicial lateral direito, frontal e lateral esquerdo: mordida aberta anterior e mordida cruzada posterior bilateral.

2.2 Exame Radiográfico Inicial

A radiografia panorâmica inicial foi utilizada como exame complementar para avaliação das estruturas dentárias e ósseas (Figura 3). Havia sido sugerida anteriormente, por outro profissional, a extração de molares como alternativa terapêutica; optou-se, contudo, por uma conduta diferente, priorizando o restabelecimento funcional e a organização da oclusão antes de considerar intervenções mais invasivas.

A telerradiografia em norma lateral confirmou tratar-se de uma mordida aberta com componente esquelético, e não apenas dentário (Figura 4).

Figura 3 — Radiografia panorâmica inicial.

Figura 4 — Telerradiografia em norma lateral inicial, evidenciando componente esquelético da mordida aberta.

2.3 Diagnóstico

O conjunto de achados clínicos e radiográficos reforçou a indicação de uma abordagem terapêutica baseada na reorganização funcional, e não apenas mecânica, da oclusão.

2.4 Plano de Tratamento

O plano terapêutico foi conduzido em etapas sequenciais, priorizando primeiro o restabelecimento da dimensão transversal da maxila, seguido do alinhamento e nivelamento dentário, da reeducação postural da língua e, por fim, da contenção dos resultados obtidos:

2.5 Evolução do Tratamento

Para a expansão transversal, foi utilizada uma placa superior encapsulada, com expansor central, nos dentes 16, 15, 14, 24, 25 e 26. Nos primeiros e segundos molares (17, 18, 27 e 28) foi confeccionado um stop com fio 0,8 mm para evitar sua extrusão, uma vez que esses elementos não foram encapsulados — já que não necessitavam de movimento para vestibular (Figura 5). Após sete meses de uso, observou-se aumento da dimensão transversal da arcada superior e correção da mordida cruzada, estabelecendo uma base mais estável para as etapas seguintes.

Figura 5 — Placa superior encapsulada com expansor central, utilizada na fase de remodelação transversal (7 meses).

Com a dimensão transversal restabelecida, avançou-se para o alinhamento e nivelamento dentário com aparelho fixo, buscando uma intercuspidação mais equilibrada e estável, compatível com a nova relação transversal obtida (Figura 6).

Figura 6 — Sequência de procedimentos 1. transversal superior; 2. vertical; 3. retenção da língua; 4. transversal inferior; 5. intercuspidação.

Na sequência, foi instalada uma placa inferior com retentor de língua (Figura 6). O objetivo foi auxiliar na reeducação postural da língua, reduzindo sua interposição durante a deglutição e favorecendo o equilíbrio funcional entre língua, musculatura perioral e oclusão. Com a base transversal estabilizada e a função mais equilibrada, iniciou-se a remodelação do arco inferior — etapa conduzida como consequência direta do novo ambiente funcional estabelecido.

Ao longo do tratamento, além das alterações oclusais, foram acompanhadas as modificações dos tecidos moles: a hipotonicidade labial inicial apresentou melhora progressiva, favorecendo um vedamento labial mais eficiente.

2.6 Resultados Finais

Ao final do tratamento ativo, observou-se melhora expressiva do padrão facial, com vedamento labial mais eficiente em repouso (Figura 8).

Figura 8 — Aspecto facial final, com melhora do vedamento e do tônus labial.

No exame intraoral final, verificou-se máxima intercuspidação estável, com contatos oclusais compatíveis com uma distribuição funcional mais equilibrada, além do restabelecimento das guias funcionais: guia canino direita, guia canino esquerda e guia protrusiva , favorecendo uma dinâmica mandibular mais fisiológica (Figura 9).

Figura 9 — Máxima intercuspidação final, com correção da mordida aberta e da mordida cruzada.

Figura 10 — Fotos oclusais iniciais e finais.

A comparação entre as radiografias cefalométricas inicial e final permitiu visualizar a evolução do caso também ao nível ósseo, documentando a estabilidade das alterações obtidas ao longo do acompanhamento (Figura 11).

Figura 11— Telerradiografia inicial (2003), final do tratamento ortodôntico (2005) e 4 anos depois, na revisão anual (2009) para avaliar estabilidade do tratamento.

2.7 Contenção

Para a manutenção dos resultados obtidos, foi utilizada uma placa de contenção com grampo de Coffin, facilitando a boa postura da língua, com a finalidade de preservar a estabilidade transversal e o equilíbrio funcional alcançados. O desenho da placa privilegiou pouco acrílico na região anterior, deixando espaço para a posição da língua em contato com a papila interincisiva (Figura 11).

Figura 12 — Placa de contenção superior com grampo de Coffin, projetada para favorecer a postura lingual adequada. Placa inferior com retentor de língua.

3. Discussão

O caso ilustra um princípio central da Ortopedia Funcional dos Maxilares: mordida aberta anterior e mordida cruzada posterior associadas à respiração bucal frequentemente refletem um desequilíbrio funcional entre língua, musculatura perioral e cadeia craniocervical, e não apenas uma alteração dentária isolada. A postura lingual inadequada — com o dorso da língua deixando de ocupar integralmente o palato — compromete o espaço funcional livre e favorece tanto a atresia maxilar quanto a instalação e a manutenção da mordida aberta.

A opção por priorizar a expansão transversal e a reeducação postural da língua, em vez de partir diretamente para extrações dentárias — alternativa cogitada anteriormente —, é consistente com a lógica funcional de tratar a causa antes de gerenciar a consequência mecânica. A sequência clínica adotada (expansão → alinhamento/nivelamento → reeducação postural com retentor lingual → contenção) buscou criar, em cada etapa, um ambiente funcional mais favorável para a etapa seguinte, o que pode ter contribuído para a estabilidade dos resultados observada ao longo dos seis anos de acompanhamento.

Como limitações, trata-se de um relato de caso único, sem grupo de comparação, com análise retrospectiva de registros clínicos e radiográficos de arquivo. Ainda assim, o longo período de acompanhamento (2003–2009) constitui um elemento importante para a avaliação da estabilidade do tratamento, frequentemente pouco documentada na literatura de casos tratados por abordagem funcional.

4. Considerações Finais

O caso demonstra que a abordagem funcional — com expansão maxilar, reeducação postural da língua e reorganização oclusal gradual — pode promover a correção estável de mordida aberta anterior e mordida cruzada posterior associadas à respiração bucal, com manutenção dos resultados ao longo de um acompanhamento de seis anos. Reforça-se a importância da avaliação funcional (respiração, postura lingual e vedamento labial) como parte do diagnóstico e do planejamento terapêutico em casos de mordida aberta, e não apenas da análise cefalométrica e dentária isolada.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *